Uma equipa fez-se eterna na história do Vitória com dois heróis no altar
A história vitoriana enriqueceu substantivamente nos primeiros dias de 2026. Pedir melhor entrada no novo ano era praticamente impossível. Mais do que o terceiro troféu da sua história, a Taça da Liga conquistada em Leiria este sábado vai-se eternizar na memória de quem esteve em Leiria e de quem assistiu agarrado ao cachecol pela televisão pelo brilhantismo com que esta equipa do Vitória SC garantiu o troféu: três reviravoltas perante três das equipas mais cotadas do futebol português atestam o merecimento desse feito.
Primeiro, caiu o FC Porto, em pleno Dragão, com um 3-1 pleno de oportunidade, a 4 de dezembro; depois, o Sporting, com um 2-1 selado com uma reviravolta nos descontos, que teve Alioune Ndoye como protagonista, e, por fim, uma vitória sobre o mais antigo rival, o vizinho Sporting de Braga, num verdadeiro thriller que perdurará na consciência de quem teve o privilégio de assistir.
Numa equipa que deixou o nome gravado a letras de ouro na história vitoriana, dois nomes vestiram a capa de super-heróis: Ndoye, com uma impulsão digna de Cristiano Ronaldo, para uma cabeçada violentíssima, indefensável para Hornicek, a selar o 2-1, aos 83 minutos, e Charles, a quem foi incumbida a missão de travar o penálti de Zalazar no último minuto.
Protagonista de uma época em que começou a titular e viu Juan Castillo ocupar-lhe o lugar no campeonato, o experiente guarda-redes brasileiro via na Taça da Liga a oportunidade para viver o ponto mais alto da carreira. Após as defesas decisivas perante o Sporting, sentiu dificuldades na primeira parte, ao ficar estático perante o livre certeiro de Dorgeles, aos 17 minutos, a adiantar os arsenalistas, e no final da primeira metade, quando foi incapaz de agarrar um cruzamento, e foi a cabeça de Strata a negar o 2-0.
Homem de fé, Charles contornou mais uma vez as dificuldades e rubricou uma segunda parte sublime, travando todas as bolas com selo de baliza. A cereja no topo do bolo - da final, mas porventura da carreira - viria nos derradeiros instantes. Sozinho perante Zalazar, acreditou que a bola iria para o seu lado direito, esticou-se com toda a convicção e rubricou uma defesa que valeu uma taça. Assim se escreveu um momento que, na história vitoriana, só tem paralelo com a defesa de Jesus em Madrid, perante o Atlético, para a segunda eliminatória da Taça UEFA de 1986/87.
A Bancada Nascente do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, veio abaixo. Os milhares de vitorianos presentes sentiram, enfim, que a taça já não lhes escapava após um encontro carregado de adrenalina e emoção. Ao intervalo, havia a noção de que o Sporting de Braga fora a melhor equipa na primeira metade, pese o cabeceamento perigoso de Nóbrega, que poderia ter dado o empate. Mas no âmago de cada adepto repousavam as memórias dos jogos com o FC Porto e Sporting. Havia a esperança de que a marcha do marcador se repetisse. E repetiu.
Chamado a converter uma penalidade, Samu foi frio e bateu para o lado contrário de Hornicek. O tento despertou os vitorianos e lançou a equipa para uma fase de superioridade que perdurou até ao golo da reviravolta. O remate de trivela de Nélson Oliveira à trave e outro cabeceamento de Ndoye, mesmo a antecipar o 2-1, comprovam o crescimento da equipa de Luís Pinto, de mão dada com as substituições efetuadas. A Taça da Liga de 2025/26 foi, enfim, um triunfo de uma crença inesgotável, do cerrar de dentes perante as inúmeras dificuldades nos três jogos e também de uma ponta de felicidade que parecia destinada a um grupo de jogadores que nunca desistiu.