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“Toneladas de comida iam para o lixo”. Refood faz a ponte com quem precisa

Bruno José Ferreira
Sociedade \ sexta-feira, junho 07, 2024
© Direitos reservados
Com cerca de 20 voluntários, o núcleo de Guimarães da Refood tem uma logística que cresceu “rápido” em oito anos, aliando a “luta contra a pobreza e contra o desperdício” nos alimentos distribuídos.

O conceito é “simples”, acreditam. “Só pedimos uma coisa que já está produzida a mais de um lado e que pode ajudar pessoas carenciadas do outro”. É assim que Catarina Oliveira vê o trabalho desenvolvido na Refood, neste caso de Guimarães, seis dias por semana. Em traços gerais, está apresentado o projeto pela voz da atual coordenadora. Mas, passando da teoria à prática, o processo é bastante mais complexo, ainda que camuflado por uma máquina já bastante oleada a funcionar há oito anos. Atualmente são 209 os voluntários envolvidos, 45 parceiros regulares e um “número de benificiários a bater nas 400 pessoas”, dá conta a responsável, ligada à Refood Guimarães praticamente desde o seu início.

No papel, a orgânica funciona entre as 18h30 e as 23h30. Apenas se pedem duas horas por semana a cada voluntário. Na prática, o Jornal de Guimarães chega por volta das 18h10 ao Centro de Operações, em Azurém, e já a carrinha da Refood sai para a rota do dia. “Entre as 18h00 e as 20h00, faço três saídas, por norma. E vou às fontes de alimento – restaurantes, lares, supermercados – segundo a rota estabelecida”, explica Fernando Ribeiro. O professor universitário é membro fundador, tendo sido convidado para apadrinhar a iniciativa, em 2016. “Gostei da iniciativa e quis ser voluntário”, acrescenta, lembrando que esteve na organização da primeira reunião.

“Contactei o presidente da Câmara para estar connosco no primeiro dia. Andou como nós, com uma cesta a fazer a recolha”, recorda. Ao início, os beneficiários rondavam as duas dezenas e as fontes de alimentos eram cinco ou seis. A dinâmica transformou-se, a máquina cresceu, ficou mais complexa e hoje o crescimento é notório. A Junta de Freguesia de Azurém cede as instalações – por baixo da sede da Junta –, a autarquia ajudou à aquisição da viatura; voluntários, parceiros e beneficiários foram crescendo gradualmente. Catarina Oliveira sorri ao rebobinar a história e ao sentir o crescimento em Guimarães do movimento que tem vários núcleos pelo país e também pelo estrangeiro. “Foi um crescimento gradual, sustentado, mas rápido”, reconhece, mesmo com uma pandemia pelo meio, em que alguns núcleos acabaram por encerrar portas.

 

“Gratificante”: o denominador comum dos voluntários

Para este crescimento, a coordenadora – técnica de logística natural de Urgezes – lembra o trabalho necessário para enraizar o conceito. “Excedente não é propriamente restos. Até 2019 tivemos de fazer esse trabalho, de ir atrás das pessoas, de explicar. Agora já somos mais conhecidos, já há pessoas a contactar, eventos de catering a fazer doações, eventos esporádicos como o Vitória ou os espetáculos no Multiusos”, conta. A perceção de Fernando Ribeiro é a mesma. “A Refood em Guimarães evoluiu muito”. Faz um travão no raciocínio e atira que “o ideal era não haver Refood, mas como existe essa necessidade, deu-se um crescimento e uma evolução”, esclarece.

Neste cenário, a ajuda da Refood divide-se em dois tipos. “Os excedentes alimentares que vêm de supermercados – temos uma rede de parceiros a nível nacional – e de outras superfícies são para os cabazes. Cabazes que as famílias levam, uma vez por semana ou uma vez por mês. Os excedentes dos restaurantes, comida confecionada, é servida em refeições já cozinhadas”, exemplifica Catarina Oliveira, enquanto ao lado já se abrem as arcas frigoríficas e preparam-se tupperwares. Maioritariamente os benificiários das refeições já preparadas são do centro da cidade, já no que concerne aos cabazes, há juntas de freguesia e outras organizações a levar mais longe esta ajuda proporcionada pela Refood totalmente em regime de voluntariado.

Para que toda a logística funcione, tornou-se indispensável organizar recursos e criar áreas de atuação, sendo 30 elementos voluntários gestores. “Arranjo contactos, no fundo”, contextualiza Fernando Ribeiro, dando dois exemplos práticos: “A Refood precisa de tupperwares, eu procuro empresas que tenham tupperwares, ligo para lá e vou buscar. Recentemente a carrinha precisou de pneus; liguei para uma empresa na qual tinha conhecimentos e arranjou-se”. Nesta tarefa de fazer a ponte entre quem tem a mais e quem necessita, os voluntários fazem um pouco de tudo: “Desde lavar tupperwares, toalhas, lavar loiça, distribuir comida, preparar cabazes, ao trabalho de fazer listas Excel, programar e delinear rotas, fazemos um pouco de tudo”, assume o voluntário.

Um trabalho “gratificante”, asseguram. Por várias razões: “A quantidade de comida que ia para o lixo é impressionante. Então a quantidade de pão e bolos…”, diz Fernando, nem terminando a frase. “Algumas das nossas fontes de alimentos já nos dão menos. Perceberam que havia excesso”, complementa. “São toneladas de comida que iam para o lixo, e cada vez mais pessoas a precisar”, acrescenta Catarina.  

 

No Migas de Pão, há sempre um kit para evitar o desperdício

O restaurante Migas de Pão, na rua Calouste Gulbenkian, é um dos estabelecimentos de restauração que faz parte do leque de fontes de alimentos da Refood Guimarães. A experiência proporcionou-se há alguns anos por intermédio de Miguel Oliveira, na altura funcionário em part-time. “Tenho uma vizinha que é voluntária e em conversa, ocasional, explicou-me o conceito. Via que diariamente havia sobras e interessei-me. Perguntei como podíamos participar”, conta o administrativo do restaurante. “Durante alguns meses ia lá eu com a minha viatura. Depois, por incompatibilidade horária, começou a ser a carrinha a fazer o levantamento”.

Hoje a rota da Refood tem assinalado o Migas de Pão, assim como o Centro Cultural Vila Flor, “em que são feitos serviços de catering em larga escala com sobras muito grandes”. A passagem no local é diária; quando não se justifica é dado o alerta. “Às vezes o movimento não é o esperado, ou a tendência até vai para outros pratos”, denota Miguel Oliveira, indo ao encontro da diferença já abordada entre o excedente que não são restos. A cada levantamento, a Refood deixa um kit próprio, com embalagens, para o dia seguinte. “Simplifica muito. É só chegar lá e levantar, por vezes”, revela.

Passa-se o último pano na banca de um dos lados do Centro de Operações, acomodam-se as últimas embalagens do outro lado e pousam-se, por hoje, os aventais em mais uma jornada concluída. Amanhã novos rostos vestem a mesma capa para desempenhar a missão “contra o desperdício alimentar e a pobreza”, recebendo o tal sentimento “gratificante”, termina Catarina Oliveira. Recebem “pessoas que há bem pouco tempo tinham o seu emprego, bem vestidas – e não me interpretem mal –, que de repente não têm fonte de rendimento. Pode acontecer a qualquer um de nós”, constata Fernando Ribeiro. A Refood faz a tal ponte entre quem tem a mais e quem precisa.

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