Pedro Pinto: “É um grande orgulho chegar à marca dos 500 jogos na Liga.”
* Entrevista de Rodrigo Martins
No último fim-de-semana, Pedro Pinto escreveu o seu nome na história do basquetebol nacional. Ao entrar em campo no triunfo do Vitória SC frente ao CA Queluz (103-96), o base vitoriano atingiu a histórica marca de 500 jogos na Liga. Aos 37 anos, o internacional português tornou-se no segundo jogador em atividade com mais partidas realizadas na competição, apenas atrás de José Barbosa (UD Oliveirense). Em entrevista ao Jornal de Guimarães, o atleta natural do Barreiro expressa o orgulho por este marco, revela que encontrou em Guimarães a sua segunda casa e mostra como a pintura se tornou o seu refúgio fora das quatro linhas.
Recentemente chegaste aos 500 jogos na Liga. O que representa esta marca para ti?
É um grande orgulho. Não era uma coisa que eu imaginava quando comecei, nem era o meu foco como é óbvio, mas é uma conquista bonita e sinto-me orgulhoso por isso.
Há algum jogo que te tenha ficado na memória neste percurso todo?
Muitos jogos ficaram-me na memória, mas o que me marcou mais foi no meu primeiro ano aqui no Vitória (2013/2014), onde fui pela primeira vez a uma final, no último jogo frente ao Benfica em nossa casa. Não se via uma cadeira, com pessoas de pé e um ambiente incrível. Se houvesse um jogo que pudesse voltar a jogar seria esse.
Que balanço fazes de ti e do clube para já, desta época? O principal objetivo é atingir o play-off?
Sim, o objetivo é sempre esse, embora tenhamos tido altos e baixos até agora. Acho que estas duas últimas vitórias (CA Queluz 103-96; Imortal 82-77) foram muito importantes e neste momento estamos no bom caminho para conseguir o objetivo que é ir ao play-off.
Com esta marca histórica, deves ser certamente um dos líderes dentro do balneário. Revês-te nesse papel e que mensagem costumas passar para os jogadores mais novos?
Ao longo dos anos, quando fui ganhando mais experiência, fui-me adaptando mais a esse papel de jogador mais experiente e comecei com o tempo a dar pequenos conselhos aos mais novos. O que tenho para dizer aos mais jovens é que acreditem sempre, trabalhem e lutem pelos vossos sonhos. Vão haver muitos altos e baixos e nos momentos menos bons é importante manter o foco e saber que as coisas boas vão vir. São esses momentos às vezes que nos tornam mais fortes mentalmente para as adversidades que vamos tendo.
Esta é a tua segunda passagem pelo Vitória SC, já vais na quarta temporada consecutiva desde o teu regresso. Que diferenças notas em ti da primeira passagem por cá e também do clube, para agora?
No clube, os adeptos continuam os mesmos, o amor pelo clube continua igual, assim como as pessoas da cidade, que tratam toda a gente bem, incluindo os jogadores. Mesmo os jogadores estrangeiros quando chegam cá, sentem-se logo acolhidos e adaptam-se bem. Em relação a mim, profissionalmente sinto-me o mesmo, mas um bocadinho mais velho, com mais experiência do que a primeira vez que passei cá, embora o foco e a vontade continuem iguais.
E em relação à Liga Portuguesa? Sentes que evoluiu?
Evoluiu bastante e acho que estamos num bom caminho para continuar a crescer com o basquetebol em Portugal. Penso que evoluiu muito em termos de visualizações e transmissões televisivas, para além das redes sociais que ajudam muito a divulgar a modalidade. O Neemias Queta, que está na NBA, também é um grande “boost” para a modalidade, assim como a participação da seleção no último Europeu, que foi muito bom para o país.
Já tiveste a oportunidade de dizer que a cidade e o clube de Guimarães são especiais para ti, mas sendo tu natural do Barreiro, como é que foi a adaptação de quando chegaste cá?
Eu conhecia dois ou três jogadores que já cá estavam e no primeiro dia que cheguei, um dos meus colegas de equipa, que eu ainda não conhecia e era de cá da cidade, fazia anos e fomos logo todos jantar a casa dele e ficamos até de madrugada a conversar sobre o clube e a época. A integração acabou por se tornar fácil e acho que isso diz muito das pessoas de Guimarães e da cidade em si. Muitos colegas de equipa da altura continuam meus amigos até aos dias de hoje.
O Vitória SC é conhecido por ter adeptos bastantes fervorosos. Gostavas de viver os ambientes que tiveste na fase inicial?
Gostava muito de voltar a ver o pavilhão ainda mais cheio. Este ano já tivemos um cheirinho disso contra o SC Braga, onde tivemos um bom ambiente. Se pudéssmos encher o nosso pavilhão como naquela final frente ao Benfica era excelente.
Com 53 internacionalizações, o quão especial foi para ti representar Portugal?
Foi muito especial. Era um sonho desde que comecei a jogar basquetebol, em pequenino, quando via jogadores, que na altura idolatrava, assim como a seleção, que tinha participações em Europeus. Foi sempre um sonho representar a seleção e poder fazê-lo foi um orgulho.
”Muitos jogos ficaram-me na memória, mas o que me marcou mais foi no meu primeiro ano aqui no Vitória, onde fui pela primeira vez a uma final, no último jogo frente ao Benfica em nossa casa”
Por muitas vezes, um atleta de alta competição vive ambientes de pressão. A pintura é o teu “porto seguro” nesses momentos, uma vez que já revelaste gosto pela arte?
Eu descobri a pintura há seis/sete anos e desde o início senti que sempre que estava a pintar, abstraía-me um bocado de tudo e que era ali o meu “momento zen”. A pintura ajuda-me bastante a desconectar, o gosto foi-se tornando maior à medida que fui pintando e agora já é uma coisa regular.
Já revelaste que tens vários pedidos e até já vendeste alguns quadros. Já ponderaste fazer uma exposição em Guimarães?
Já me passou pela cabeça. Ainda não sei se tenho quadros suficientes, porque muitos deles já foram vendidos. Tenho alguns ainda, mas quem sabe um dia. Era uma experiência gira de fazer.
Os teus colegas de equipa costumam pedir-te quadros ou comentar este teu talento?
Normalmente costumam gostar e encorajam-me a continuar. Já tive alguns pedidos dos meus colegas, mesmo em anos anteriores também. Sinto que tenho evoluído bastante ao longo dos anos.
Tens já 37 anos, 38 no próximo mês, pergunto o que te falta ainda alcançar na tua carreira.
Acho que já vou um bocado tarde, mas nunca se sabe: a Liga. É o único troféu que me falta. Fora isso, estou contente com a carreira que fiz, com que eu alcancei, com os sonhos que concretizei e que tinha de quando era miúdo.
Quanto tempo mais podemos ver o Pedro dentro de campo?
Ainda não penso acabar a carreira, sinto-me bem fisicamente. Ainda sinto a paixão por jogar e treinar, mas para já, quero desfrutar estes últimos anos que tenho e aproveitar ao máximo enquanto posso, porque acho que mais 500 jogos não vou conseguir fazer.
No fundo, não penso muito nisso sinceramente. Quando tiver que ser é, não tenho nenhuma data ou ano específicos. Para já vou treino a treino, jogo a jogo, época a época.