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Guimarães
13 março 2026
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Num teatro repleto de ironia, IA é mais um capítulo nas relações de poder

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sexta-feira, março 13, 2026
© Direitos reservados
Ensombrada pela hipótese de que só quem está no topo da pirâmide é insubstituível, “Ensaio aberto: o fim da história humana” medita sobre o que distingue a humanidade em tempos de voragem.

O fim da história humana como catástrofe pode ser mero ponto de vista. No palco, um chatbot lembra os milhões de pessoas que ainda são vítimas de escravatura, seja ela laboral ou através de casamentos forçados, a emergência climática ou a recente estatística a dar conta de que a riqueza dos 12 maiores bilionários supera as posses dos quatro mil milhões de pessoas mais pobres do mundo para afirmar que a história humana não é mais do que a evolução das formas de opressão dos mais fortes sobre os mais frágeis. Entre risos e voz prazenteira, o ente diz ao público que esse desfecho está longe de ser algo mau, pelo menos para o planeta, enquanto três personagens se debatem com a aflição de se verem substituídos e apagados como seres sociais.

O som com que o auditório do Teatro Jordão brindou os primeiros espetadores de “Ensaio aberto: o fim da história humana” na noite de 6 de março assim que ocuparam os seus lugares – o Introito do Requiem, de Mozart – preparava-os para o que iriam assistir em 80 minutos: teatro com a ideia de finitude a pairar. Mas se o contexto era sombrio, a mais recente peça com dramaturgia e encenação do vimaranense José Eduardo Silva estava longe de ser sisuda.

Instantes de comédia, ainda que negra, pontuaram um espetáculo onde personagens atuando em nome próprio - Zé Ribeiro, Francisca Sobrinho e Cristina Cunha - se transformam de juízes do público, catalogando-o de substituível pela Inteligência Artificial (IA), em vítimas de um futuro cada vez mais nítido no horizonte.

A reviravolta dá-se quando a quarta personagem – José Eduardo Silva – intervém como encenador para aperfeiçoar uma das cenas. O espetáculo entra numa dimensão metateatral, tornando-se num ensaio com sucessivas correções que evocam a ideia de substituição por recursos mais eficientes: emerge o assédio laboral e moral como espelho das assimetrias de poder, bem patentes no aparato cénico. Pelo meio, Zé Ribeiro resigna-se ao facto de que trabalhar para se manter na base da pirâmide – estava literalmente desenhada no palco - é um sinal de que há quem seja muito mais produtivo para estar mais perto do topo.

No meio de um paradigma que os parece sufocar, os personagens também encontram espaço para a revolta; o monólogo de Cristina Cunha, contando a vida laboral do pai, no momento que mais vincula esta criação a Guimarães e à história do trabalho no Vale do Ave, e a evocação final de Francisca Sobrinho, numa afirmação de humanidade despojada de todos os fardos que se carregam pela vida – pode ser o trabalho ou as várias máscaras sociais que vamos envergando – contrariam um personagem que assume a pele de um encenador sem pejo em recorrer à violência para impor a sua visão e também um chatbot que aflora somente aquilo que há de mau sobre ser-se humano.

Após três sessões no Teatro Jordão, a peça que encerrou uma trilogia teatral lançada por José Eduardo Silva em 2013 – começou com “Eis o homem” e prosseguiu com “(Des)individuação – (Des)Concerto para Bernard Stiegler, em 2016 -, volta a ser exibida em 28 de março, em Lisboa, na Escola do Largo.

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