Multiusos revive tempos idos em concerto honesto e enérgico dos Alphaville
A juventude vivida em Berlim Ocidental há mais de 40 anos foi-se há muito, mas o clamor da plateia quando se apercebeu de que iria ouvir “Forever young”, com as luzes dos telemóveis a acenderem-se de imediato, demonstra que esse hino, nascido em plena onda synth pop dos anos 80, atingiu há muito o patamar da intemporalidade.
As cerca de três mil pessoas que encheram o Multiusos cantaram o refrão a pequenos pulmões, antes do encore e da interpretação de “State of dreams”, a encerrar pouco mais de hora e meia de um concerto em que a entrega do vocalista Marian Gold e dos restantes músicos em palco foi plena desde a primeira canção. O público, esse, apreendeu essa energia aos poucos, antes de se soltar plenamente em “Sounds like a melody”. Também incluída no álbum inaugural – “Forever young”, de 1984 –, e lançada como single, essa canção valeu a maior descarga de energia da noite, com muito do público a levantar-se definitivamente das cadeiras para dançar ao som dos teclados e da guitarra.
Após as interpretações de “Dance with me” e de “Jet Set”, o primeiro grande burburinho entre a plateia emergiu quando soaram as primeiras notas de "Big in Japan", o outro grande êxito do álbum de estreia. O repertório desse trabalho, ainda hoje o mais reconhecido do coletivo alemão, quer a nível comercial, quer a nível de crítica, apareceu em força no Multiusos. Na projeção multimédia que servia de fundo à atuação da banda, uma imagem do arame farpado do Muro de Berlim acompanhou a interpretação de “Summer in Berlin”, outra evocação de uma juventude vivida na cidade então dividida, símbolo da Guerra Fria.
Também as canções “To Germany with love” e “A victory of love” representaram esse álbum de 1984 numa noite em que a visão social e política da banda emergiu em “Carry your flag”, faixa de 2010 na qual expressam solidariedade para com a comunidade LGBTQ+, e em “Beethoven”, uma canção de 1994, acompanhada de imagens do movimento skinhead dos anos 90 do século XX, associado à ideologia neonazi.
Brindados com um som cristalino, a fazer jus à qualidade acústica que se reconhece ao Multiusos, muitos dos que viram os Alphaville puderam reviver os anos da eterna juventude, em que cantavam e dançavam ao ritmo das bandas da eurodance e da synth pop da década de 80.