Multidão reúne-se no Coreto por direitos à habitação digna e à manifestação
Numa noite chuvosa e fria, mais de uma centena de pessoas reuniram-se junto ao Coreto, da Alameda de São Dâmaso, para reivindicarem o direito à habitação digna e à manifestação, na sequência das manifestações que se estendem desde 10 de outubro, no Porto. Na assembleia popular convocada pelo movimento “Não dá mais”, cerca de duas dezenas de pessoas intervieram, entre as performances musicais do Unsafe Space Garden Duo, de Dalila Mota e de Carlos Mendes.
Impulsionadora da assembleia popular, Sara Marques lembrou “os jovens portugueses que estão a partilhar a casa, a fazer de salas de estar quartos de dormir” e até a adquirirem autocaravanas como “solução possível para ter alguma independência, face à selvajaria que se pratica no mercado imobiliário".
"Enquanto isto, o senhor primeiro-ministro tem para cima de 50 imóveis. Há povo com medo que seja aprovada uma lei que possa facilitar o seu despejo. O que ainda nos vai salvando é uma ou outra barreira legal. Sabem perfeitamente que, se esta lei for aprovada, o senhorio vai aproveitar, porque vai querer cobrar uma renda superior àquela que é praticada", completou.
Incapaz de sair da casa dos pais, face às deduções para combustível que faz para ir trabalhar, criticou ainda a violência policial demonstrada na madrugada de 25 de outubro, a incitação à violência por parte de alguns deputados na Assembleia da República, de “forma completamente preconceituosa”, insinuando que “não tomam banho” e “outras baixarias que desonram o dever de urbanidade que os deputados deveriam exercer" e ainda “a ladainha” do primeiro-ministro, Luís Montenegro, quando às “razões egoístas” das manifestações.
“Ele que vá ao Rossio, que vá à Praça D. João I, que vá à Avenida de Braga ou que venha aqui para ver como os delinquentes organizam cozinhas comunitárias onde toda a gente pode comer de graça, que vá à rua para ver como o povo se organiza para cantar, para estudar, para protestar, porque ser pacífico não significa estar calado. Censura é tão 24 de abril de 1974, senhor primeiro-ministro", completou.
Agradado com a adesão à iniciativa, César Cardoso assumiu o medo de intervir em público, mas também a necessidade de defender aquilo em que se acredita, seja em espaços de mobilização coletiva, mas também nos contextos familiar e de trabalho. Sublinhou ainda que as redes sociais não têm de ser o “terreno da extrema-direita”, dando o exemplo das recentes eleições brasileiras, ganhas por Lula da Silva.
"É um momento com o qual todos podemos aprender, com mobilização extraordinária nas ruas e nas redes sociais, porque achei que era um espaço que já não seria possível disputar. Mostraram que é possível disputar, ainda que a Meta estivesse a interferir. É uma lição que podemos tirar: é possível reivindicarmos o espaço das redes sociais, que pensava eu estar associado à extrema-direita", disse.
“Continuamos a lutar para alcançar aquilo que deveria ser o mínimo”
Conhecido ativista vimaranense, músico e professor, Luís Lisboa lembrou que as assembleias populares estão presentes na humanidade “desde o seu início” e que a de terça-feira surgiu “por desespero” e por falta de alternativas face à “partidocracia” que tem vendido “recursos públicos” aos estrangeiros e contribuído para o “desmoronamento do Estado Social”.
Filho de “um pai de uma família rica de Pevidém e de uma mãe de uma família extremamente pobre de São Martinho de Candoso, cujo casamento foi ostracizado”, Luís Lisboa afirmou estar desperto para “a noção de classe” desde jovem, manifestou solidariedade para com as manifestações que exigem seis medidas concretas – reversão da Lei das Rendas, fim dos despejos, proibição de compra de imóveis por fundos especulativos, mais habitação pública, recuperação de imóveis abandonados e devolutos e tetos aos preços das rendas – e criticou a violência policial.
"Às 3h30, com as tendas já retiradas, a polícia vai bater na cabeça das pessoas. 37 feridos, desarmados, sem treino militar, sem reação. Ainda têm a coragem de dizer que cheiram mal e são drogados. O Estado falhou para com as pessoas e agora bate-lhes para que não reivindiquem os seus direitos", sublinhou.
Assumindo-se privilegiado, fruto de ser médico e ter “um bom salário”, Pedro von Hafe Leite mostrou-se solidário com familiares e amigos que têm “vidas muito complicadas, de sobrevivência” e defendeu o direito das pessoas a não viverem “em constante sacrifício”, e as aspirações dos jovens a terem “a sua autonomia”, sem que “dependa de um sacrifício diário”, e dos idosos a terem “um fim de vida calmo, sem temerem diariamente ser despejados da sua casa”.
"As vítimas desta crise são também os millennials, que, mesmo a ter um, dois ou três trabalhos, não conseguem pagar uma renda ou um empréstimo e ficar confortáveis. Diz-se que 70% dos portugueses são proprietários, mas a maioria dos 70% paga, com muito esforço, uma renda ao banco. É uma luta dos pequenos empresários, que se tentam manter à tona com encargos cada vez maiores com as rendas dos seus estabelecimentos. Sofremos todos com isto", disse, manifestando ainda solidariedade com as vítimas de violência policial.
A ideia de sacrifício esteve também patente no testemunho de Ana Fonseca, direcionado para os pais que sempre trabalharam para ter o melhor e que estão agora exaustos, a ver uma filha que está a seguir “um caminho muito semelhante” ao deles. "Muitos dos nossos pais passaram uma vida inteira a pensar em nós, com a esperança e a certeza de que teríamos uma vida melhor do que a deles: trabalharam, abdicaram, adiaram sonhos e aguentaram muito, porque acreditaram que tudo isso os faria chegar mais longe. Essa certeza desvaneceu-se. E custa olhar para o presente e perceber que, apesar de tudo o que fizeram, continuamos a lutar para alcançar aquilo que deveria ser o mínimo”, referiu.
Assembleia popular junto ao coreto da Alameda de São Dâmaso
"Estão a tentar vender-nos uma mentira, que é extremista querer ter casa”
Ricardo Ruão Pires salientou, por seu turno, que “o direito à habitação é um direito humano”, embora se viva num tempo em que “todos estão mais perto de ficarem numa tenda do que sentados no sofá”, enquanto Andreia Martins, em representação do Laboratório de Ação Cívica (LAC), vincou que as pessoas não querem “casas de borla”, mas sim “justiça e habitação a preços ajustados à realidade dos salários portugueses” para se garantir a “base para uma vida com dignidade”.
“Trabalhar um mês inteiro não pode servir apenas para pagar uma renda ou uma prestação ao banco", disse, vincando a recusa em voltar aos “tempos de miséria” em que pais e avós perderam a infância aos nove e 10 anos para irem trabalhar, saindo mais tarde do país.
A assembleia popular reuniu também representantes de partidos políticos. Mariana Silva, da CDU, enalteceu a homenagem que Guimarães fez esta terça-feira aos 50 anos do poder local democrático e criticou o presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, que deu a entender que os jovens não estão dispostos aos sacrifícios dos avós e dos pais. "Precisamos de perceber que as exigências são as de habitação digna. O senhor presidente do IHRU disse os jovens não estão disponíveis para o sacrifício, porque não vos queria dizer que o património do Estado está fechado e destruído. Também em Guimarães, o património do Estado está fechado e destruído", afirmou.
Mariana Silva exigiu assim a recuperação do património do Estado para diminuir a lista de espera em Guimarães e o fim das ameaças aos despejos. “As pessoas são diariamente ameaçadas nos seus contratos de habitação. E cedem, porque têm medo de ficar sem um teto. Olham para o lado e veem que não há outras possibilidades. Temos de exigir que as leis da habitação melhorem e não piorem no dia a dia. A casa é para habitar, não para especular", defendeu.
Já Sérgio Salazar, deputado do PS na Assembleia Municipal, vincou que “toda a gente em Portugal sofre com o problema da habitação” e criticou a mensagem que se está a querer fazer passar, de que os manifestantes são extremistas. “Estão a tentar vender-nos uma mentira. Agora é extremista querer ter casa. Se é extremista querer ter casa, então somos todos. (…) Não podemos deixar que o Governo mude a conversa, dizendo que isto é para os extremistas. Pelos vistos, é extremista querer ter casa, mas não é extremista carregar em manifestantes pacíficos. É extremista não querer pagar uma renda de 800 euros, mas não é extremista avançar sobre manifestantes com cães", disse.