“Guimarães Jazz é festival de construção, não um festival imediato”
A um mês da 35.ª edição do Guimarães Jazz, a cooperativa municipal A Oficina promoveu a apresentação do livro “Guimarães Jazz – 35 anos” nesta sexta-feira, mais uma camada de arquivo e de reflexão sobre um dos fenómenos mais marcantes da cena jazzística nacional e do panorama cultural vimaranense. Para o diretor artístico, Ivo Martins, o livro acrescenta uma camada de reflexão no “conjunto de sedimentos” que é o Guimarães Jazz, num festival construído por muitas pessoas, num processo orgânico.
“Hoje em dia, parece que o país festivalizou-se. O Guimarães Jazz é um festival de construção. Não é um festival imediato. Fez uma viagem, tomou decisões, descobriu fórmulas, testou-as, com tempo. Hoje está tudo cheio de pressa. Isto permite uma construção diferente da construção imediata. Este é talvez o festival de jazz mais bem documentado do país”, disse, na apresentação decorrida no foyer do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.
O programador do festival desde 1996 referiu que, após os livros publicados nos 20 e nos 25 anos do Guimarães Jazz, a obra apresentada reflete sobre a última década do festival, com textos e fotografias dos concertos, expõe os cartazes de todas as edições e conta com textos de lançamento de Esser Jorge Silva, presidente da cooperativa A Oficina, e de Susana Sardo, professora catedrática de etnomusicologia e pró-reitora para a cultura da Universidade de Aveiro, instituição com um curso de jazz, com a qual o festival tem parceria.
Ao lado de Ivo Martins, Esser Jorge Silva lembrou uma ida à Universidade de Aveiro para assistir a uma exposição de jazz, onde se apercebeu da relevância do Guimarães Jazz enquanto “centro de pensamento e de consolidação do jazz em Portugal”, e mencionou o conceito de “autopoieses”, usado na biologia e nas ciências sociais, para descrever o festival. “No início, ninguém sabia o que vinha aí. A cada passo, ninguém sabia em que é que ia resultar. Essa origem fundacional, algo que nasce por si e se reconstrói por si mesmo, é o que melhor define o Guimarães Jazz”, disse.
Testemunha da origem do festival, por iniciativa do Convívio, então presidido por Rosa Maria Vaz da Costa, que também interveio nesta sexta-feira, Esser Jorge Silva lembrou que o Guimarães Jazz aparece num tempo em que a vida cultural e associativa na cidade era feita de “grande esforço”, enalteceu o trabalho de Ivo Martins pela novidade que cada programa apresenta, no contexto de “um pequeno orçamento”, e considerou necessário mostrar o Guimarães Jazz aos “não públicos”.
“As cinco mil pessoas que nos visitam todos os anos enchem estes auditórios, à procura da proposta que lhes reservamos, mas temos de ir atrás dos não públicos. Temos de perceber porque estão afastados da cultura e das artes. Temos de pensar porque tal ocorre”, referiu.
O presidente da associação Convívio, Carlos Fraga, realçou que o Guimarães Jazz surge de “uma casa madura, cultural e recreativa” e que se soube “reinventar para abranger cada vez mais sonoridades no universo do jazz”.
Já a vereadora municipal para a cultura, Isabel Ferreira, realçou que o festival é um dos eventos mais associados à “identidade cultural de Guimarães” e sugeriu uma exposição com cartazes do Guimarães Jazz em espaço público.
“Poderíamos ter os cartazes em espaço público, para serem trabalhados com outros públicos”, disse.