Em dia de Reis, Ndoye coroou-se para lá da hora
Quando, sagaz, Alioune Ndoye colocou a bola entre as pernas de Rui Silva, desencadeou-se no banco vitoriano e entre as centenas de adeptos vitorianos na bancada poente do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa uma torrente de emoções em quatro atos: a euforia de ver o Vitória SC marcar um golo no último minuto de descontos que praticamente garantia uma inédita final da Taça da Liga, o desencanto de ver o lance anulado por fora de jogo, a esperança de que a jogada era, afinal, legal quando os festejos irromperam no banco de suplentes, ainda o árbitro Luís Godinho esperava pelo veredicto do videoárbitro (VAR), e a celebração definitiva assim que o juiz de Borba apontou para o centro de terreno.
Assim se consumava o 2-1 com que o Vitória SC derrotou o Sporting e apurou para uma inédita final da Taça da Liga. Dois golos para lá da hora, da autoria de um ponta de lança saído do banco aos 78 minutos, cumpriram a promessa que a equipa treinada por Luís Pinto deixara ao longo de 90 minutos: intensos e pressionantes desde o apito inicial, os homens de Guimarães ganharam vários duelos a meio-campo e ensaiaram vários ataques, mas o último passe e o remate deixaram quase sempre a desejar até às duas estocadas certeiras num leão perigoso em transição, mas que já pensava em segurar a magra vantagem obtida aos 13 minutos, num remate cruzado de Suárez.
O Vitória espera agora pelo desfecho da meia-final entre Benfica e Sporting de Braga, marcada para as 20h00 desta quarta-feira, para tentar conquistar pela primeira vez o troféu, na 12.ª final da sua história em provas a eliminar – conta ainda com sete finais da Taça de Portugal, tendo vencido uma, perante o Benfica, em 2013, e quatro da Supertaça, tendo ganhado a primeira, diante do FC Porto, em 1988.
Quem não viu os 90 minutos do jogo e se limitar a beber da sua história através de um resumo num canal televisivo ou no Youtube, ficará com a impressão de que a equipa treinada por Rui Borges ficou a dever a si mesma o 2-0, que eventualmente arrumaria a questão. É verdade que Charles, de regresso ao onze, negou o golo aos lisboetas em sete ocasiões. Esses lances foram, contudo, gerados em contra-ataques ou em transições a partir de erros de construção do Vitória. Ademais, a meia-final revestiu-se de inúmeras paragens, quase sempre para atender jogadores do Sporting, equipa que pareceu sempre interessada em baixar o ritmo, eventualmente pelo estado físico de um plantel afetado por mais de uma dezena de lesões.
Com Strata a substituir Miguel Maga e a mostrar-se personalizado na lateral direita, e Beni Mukendi, Gonçalo Nogueira e Diogo Sousa a formarem um inédito trio de meio-campo, o Vitória SC montou quase sempre uma pressão com quatro jogadores sobre a área sportinguista – Gonçalo Nogueira ao lado de Nélson Oliveira, acompanhados por Camara e Saviolo – e assumiu a construção ofensiva sempre que podia. Agressivo na hora de tentar recuperar a bola, o Vitória ora pausava o ritmo para construir com paciência a partir de trás, ora explorava a velocidade dos extremos.
O golo leonino apareceu como um intruso no domínio vitoriano: Trincão teve espaço para um passe certeiro para Suárez, que beneficiou do mau posicionamento de Miguel Nóbrega face à linha defensiva para atirar fora do alcance de Charles. O Vitória não se deixou afetar e continuou a porfiar. O volume ofensivo existia, mas as oportunidades escasseavam. Diogo Sousa tentou de fora da área, mas as situações mais perigosas até ao intervalo pertenceram à turma verde e branca.
A promessa que se cumpriu
O cenário repetiu-se na segunda parte: a equipa trajada de negro tinha mais iniciativa, que se foi avolumando à medida que as alterações se sucediam. Do outro lado, porém, Trincão era um perigo sempre que gozava de espaço. E as bolas paradas também deixaram a retaguarda vitoriana com a cabeça em água. Assim se explica que o Sporting, algo desligado na construção em bola corrida, se tenha aproximado do 2-0.
Foi preciso esperar para lá dos 90 minutos para que se cumprisse a promessa de algo de bom para o Vitória, que, aliás, sempre pairou no ar frio de Leiria. O corredor direito foi a chave para o empate: após um entendimento exemplar com Telmo Arcanjo, Strata tirou um passe com as medidas certas para um golo à ponta de lança de Alioune Ndoye. Algo discreto desde que chegou ao Vitória, o senegalês leu a trajetória da bola, esgueirou-se por detrás de Rómulo Júnior e atirou sem apelo nem agravo para o fundo das redes.
Mas o avançado vindo do Servette ainda tinha outra carta na manga. A arrancada de mais de 50 metros de Saviolo ao 11.º e último minuto de compensação foi o rastilho para a festa vitoriana, intermediada pelos desvios de Samu e de Morita, até ao desvio triunfal de Ndoye. O assistente ainda assinalou fora de jogo, mas o vitoriano estava em jogo por 1,06 metros. Bendito VAR! A final vai-se escrever com o preto e branco do Vitória e com o vermelho e branco do adversário, seja ele de Lisboa ou da vizinha cidade de Braga.