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Education Summit volta ao berço para pensar papel de professores e alunos

Tiago Mendes Dias
Educação \ quinta-feira, abril 09, 2026
© Direitos reservados
Com 2.400 agentes educativos de todo o país, cimeira arrancou esta sexta-feira, falando-se do papel da educação na inovação e de como os professores podem prevalecer na era da inteligência artificial.

Uma breve encenação de um momento icónico do filme “O clube dos poetas mortos” (1989) inaugurou a segunda edição do Education Summit, diante de 2.400 professores e educadores que lotavam o espaço em frente ao palco principal, no Multiusos de Guimarães.

Assim como o filme mostra um professor que inspira os seus alunos a olharem de forma diferente para a vida a partir da poesia, o evento organizado pela Associação Nova Escola incentiva os participantes a refletirem sobre o presente e o futuro dos processos pedagógicos, algo estimulado pelo primeiro orador dos três dias, o professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e antigo reitor, António Sampaio da Nóvoa.

Numa intervenção intitulada “Sociedade com Escolas: Resgatando a Grande Missão Humanista dos Professores”, abordou a crescente preponderância do movimento de desescolarização, com a aprendizagem a decorrer sem escolas, sem professores, sem horários e tutores de inteligência artificial, tal como preconizado por Ivan Illich, no seu livro “Sociedade sem escolas” (1971), e dissecou três das expressões hoje mais populares acerca do presente e do futuro da educação; não discorda necessariamente delas, mas pede “vigilância crítica”.

Uma é a de que “a educação acontece todos os tempos e em todos os lugares”; embora possa acontecer na família, na comunidade e na cidade, e em relações intergeracionais, cada vez mais exigentes na contemporaneidade, Sampaio da Nóvoa defendeu que "nada substitui a escola enquanto espaço-tempo autónomo da família e da sociedade, onde podem acontecer coisas diferentes, a um ritmo diferente". “A escola não pode prolongar a sociedade e a família. É uma ideia errada”, disse.

Em Guimarães, terra dos seus antepassados paternos, como o historiador Alberto Sampaio, o investigador em educação abordou o facto de estar a “ter lugar uma das maiores revoluções de sempre da aprendizagem”, para distinguir as ideias de aprendizagem e educação num sentido mais amplo. Sampaio da Nóvoa aflorou o conceito de learnification, do investigador Gert Biesta, para falar vincar que o frenesim em torno dos resultados, dos indicadores e das comparações internacionais deixa de fora dimensões cruciais da educação. “Educação é um encontro através do qual nos educamos com os outros. Precisamos da relação entre mestres e discípulos. Não há educação fora desse encontro humano”, defendeu.

A hipótese de a escola do futuro ser totalmente orientada por tutores digitais e a ideia de que a inteligência artificial (IA) estará sempre presente, mas com a necessidade de professores pelos atributos de “empatia, inspiração, escuta e qualidade da relação com os outros” merecem também a sua atenção, por colocarem a IA não como uma ferramenta ao alcance de professores e alunos para os ajudar, fenómeno ao qual reconhece potencial, mas num patamar de igualdade com os humanos, princípio de que discorda. "Estas ideias põem as máquinas no mesmo nível dos alunos e dos professores. Nestas declarações, a IA não é ferramenta, é codocente. Não se pode pensar a relação com a inteligência artificial no mesmo plano dos professores e dos alunos. E os professores também não podem ser apenas importantes pela parte humana. São cruciais na relação do conhecimento estabelecida com os alunos”, sugeriu.

Sampaio da Nóvoa fez ainda um balanço de uma viagem por Portugal para avaliar o estado atual da educação nas escolas e partilhou duas impressões: uma muito positiva, relacionada com o acolhimento que teve por parte de alunos, com as relações humanas estabelecidas entre alunos e professores, com o cuidado dos operacionais para com os alunos que têm necessidades especiais, num verdadeiro esforço de inclusão, e uma impressão bastante negativa quanto à pedagogia, onde se verifica alguma inércia na renovação da profissão. “Grande desafio pedagógico de hoje é colocar os alunos a trabalhar uns com os outros, em cooperação”, reiterou.

 

Presidente de Câmara, Ricardo Araújo, com dirigentes da Associação Nova Escola ©Paulo Pacheco

Presidente de Câmara, Ricardo Araújo, com dirigentes da Associação Nova Escola ©Paulo Pacheco

 

“A educação é a oportunidade para decidir se amamos o mundo o suficiente para cuidar dele”

Antes da intervenção de Sampaio da Nóvoa, quatro dos dirigentes da Associação Nova Escola – Raquel Roby, Paulo César Gonçalves, Catarina Fernandes e Renato Pacheco – subiram ao palco para agradecerem a presença massiva de educadores em Guimarães, para manifestarem o sentimento de orgulho em serem “profissionais de educação” e para anteciparem três dias de “partilha e conhecimento”, com a transmissão de diferentes visões e o apontar de caminhos para se educar de forma diferente.

De seguida, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, deu as boas-vindas aos presentes, enaltecendo o quão “extraordinário” é “um grupo pequeno de professores” organizar uma iniciativa com tamanha dimensão, para se pensar os modelos de educação. O autarca recorreu, aliás, a uma citação da filósofa Hannah Arendt para enaltecer o quão considera a “educação decisiva para o futuro coletivo e para a inovação”.

“A educação é o lugar e a oportunidade para decidir se amamos o mundo o suficiente para cuidar dele. Não seremos capazes de cuidar do nosso mundo se não tivermos educação no sentido lato. Não seremos capazes de construir um mundo mais fraterno, mais igual e mais solidário”, lançou.

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