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“Contraste absoluto” marca novo momento expositivo do CIAJG

Tiago Mendes Dias
Cultura \ sábado, março 21, 2026
© Direitos reservados
Não há qualquer diálogo entre as fotografias de Jorge Molder, produzidas entre 1991 e 1996, as esculturas de Aidan Duffy e a arte africana no momento inaugurado este sábado. A intenção é mesmo essa.

As molduras com as fotografias de Jorge Molder, fotógrafo com um percurso artístico a rondar os 50 anos, estendem-se pelas paredes do andar superior do Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Nelas, veem-se fotografias a preto e branco, fixadas no papel através da técnica de sais de prata e gelatina, produzidas entre 1991 e 1996.

A deambulação pelo corredor labiríntico do centro de arte contemporânea acaba por conduzir o espetador a um lugar onde as fotografias dão o lugar a esculturas mais ou menos parecidas em termos formais, fixadas na parede, sobretudo, mas também expostas no chão, por Aidan Duffy, um artista escocês. O cenário visual muda radicalmente, tal como acontece quando se desce ao piso inferior para se apreciar algumas das esculturas que compõem a coleção de arte tradicional africana de José de Guimarães.

A curadoria e a forma de apresentação da coleção de arte divergem profundamente do paradigma que vigorou durante o ciclo de Marta Mestre como diretora artística do centro e nada tem a ver com as outras duas exposições inauguradas neste sábado, às 17h00. O novo curador do CIAJG, Miguel Wandschneider, realça que o objetivo é, precisamente, realçar a disjunção entre as três mostras.

"O trabalho do Jorge Molder não dialoga com o trabalho do Aidan Duffy e com a coleção de José de Guimarães. Há um contraste absoluto. Não é só ter um artista veterano, com 78 anos, e um artista muito novo, com 30. Os trabalhos não têm nada a ver um com o outro. Isso interessou-me imenso. Interessou-me imenso esse jogo de contrastes. Diria até que é um jogo de opostos", afirmou, em declarações ao Jornal de Guimarães.

 

Uma exposição antológica que se cinge a 12 anos

Intitulada “Come Di: part 1”, a exposição de Jorge Molder nada parece ter de atípico. Afinal, as fotografias estendem-se pelas paredes, cuidadosamente alinhadas, segundo critérios estéticos e cronológicos. Ainda assim, a mostra, cuja segunda parte vai ser exibida a partir de 26 de setembro, é uma antologia do trajeto do fotógrafo, mas inclui apenas 12 anos da sua carreira: o período entre 1991, no qual produz a série “The secret agent” - nome inspirado no livro homónimo de Joseph Conrad -, na qual se torna modelo das suas imagens fotográficas de “forma insistente, obsessiva e recorrente”, em gestos de autorrepresentação, mas não necessariamente de autorretratos, e 2003, ano em que produz a última série fotográfica em gelatina e sais de prata, antes de adotar as tecnologias digitais.

A primeira parte, contudo, abrange o período que se estende até à série fotográfica “TV”, de 1996, e que inclui outras séries como “Insomnia” (1992) e “Inox” (1995), essa última pertença da coleção da Caixa Geral de Depósitos. Fotografias de uma série têm parecenças com fotografias de outra, em processos que Miguel Wandschneider classifica como de “autocitação” , e outras têm mesmo carga de autorretrato, como aquelas em que se veem as mãos e o cigarro, de “Insomnia”. A acompanhar o trabalho entre 1991 e 1996, há um preâmbulo de 16 autorretratos selecionados entre 1981 e 1987, cujos modelos assumem as figuras encenadas de esgrimistas e de empregados de mesa.

"Estes contornos da exposição são muito específicos. É uma retrospetiva de um artista vivo, mas o trabalho mais recente é de há 23 anos. A exposição não é um exercício retórico. É um exercício pragmático de dar a ver o trabalho de um artista como o Jorge Molder, permitindo um mergulho em profundidade no seu trabalho, no seu mundo, na sua prática. Não queria tornar a exposição indigesta, com obras de toda a carreira, seja para o espetador mais ocasional ou leigo, seja para o espetador mais interessado e habituado a ver exposições de arte contemporânea”, realça o curador, que foi responsável pela programação da Culturgest entre 2005 e 2017.

 

Abordagem "radicalmente diferente" à obra de José de Guimarães

A exposição de Aidan Duffy, “Back outside”, também é “muito atípica”, porque não é habitual “ter um artista com quatro anos de trabalho a ter uma exposição antológica”, esclareceu.

Miguel Wandschneider referiu ainda que a abordagem ao trabalho de José de Guimarães será “radicalmente diferente” face às de Nuno Faria e de Marta Mestre, os anteriores diretores artísticos. "Essa abordagem passa por não estar sempre a mostrar o trabalho dele, por ter períodos de repouso. Mas quando ele é mostrado, é mostrado de maneira muito assertiva, através de exposições individuais que focam um período ou um corpo de obras do José de Guimarães", projetou.

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