CIAJG sempre teve programa “digno e qualificado”, mas é hora de novo ciclo
Embora seja diretor artístico do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) desde 1 de julho de 2025, Miguel Wandschneider crê que este sábado, 21 de março de 2026, assinala a entrada num “novo ciclo na vida” daquele que considera, sem dúvida, ser “o centro de arte contemporânea mais importante em Portugal fora de Lisboa e do Porto”.
O momento expositivo – Miguel Wandschneider rejeita chamar-lhe ciclo, porque prefere aplicar essa palavra à “temporalidade longa” em que estará a programar no CIAJG – inaugurado neste sábado, com a presença do presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, da vereadora municipal para a cultura, Isabel Ferreira, e do presidente da cooperativa municipal A Oficina, Esser Jorge Silva, já dá “várias pistas das linhas programáticas” a ter em conta sob a tutela do outrora diretor artístico da Culturgest.
A exposição que reúne “Come di: parte 1”, do fotógrafo português Jorge Molder, “Back outside”, mostra escultórica do escocês Aidan Duffy, e ainda a exposição de arte africana tradicional da coleção permanente de José de Guimarães já afirma “a determinação de fazer mais jus ao nome do centro, que tem o qualificativo de internacional”.
“Gostaria que o CIAJG tivesse, daqui em diante, um horizonte internacional bastante mais vasto e que tivesse, concomitantemente, a capacidade de inscrição do seu programa expositivo num contexto internacional. Isso só poderá acontecer se as escolhas que eu fizer forem entendidas como certeiras, pertinentes, relevantes, que façam o CIAJG participar nas dinâmicas do contexto da arte internacional”, assume Miguel Wandschneider, em declarações ao Jornal de Guimarães.
O curador reconhece que, durante o período de Marta Mestre como diretora artística, entre 2021 e 2024, houve gestos com horizonte internacional dentro das “possibilidades curtas” a nível orçamental, com as exposições da espanhola Sara Ramo e do brasileiro Artur Barrio, mas não crê que “tenha havido qualquer tipo de inscrição do CIAJG nas dinâmicas do contexto internacional” da arte contemporânea.
Essa ambição de internacionalizar o CIAJG prossegue no próximo momento expositivo, inaugurado em 26 de setembro de 2026, com a segunda parte da exposição de Jorge Molder e a mostra da artista plástica polaca Dorota Jurczak. “Quem regressar ao CIAJG a partir de finais de setembro começa a ficar com uma forte suspeita de que há uma vontade de ter uma programação de exposições individuais muito mais recheada de artistas estrangeiros. Vamos ver o que o orçamento permite”, perspetiva.
Um lugar que tem feito “prova de vida”
Outra das intenções do diretor artístico do CIAJG é de realizar exposições de artistas portugueses mais velhos que assumam “enorme importância” na história expositiva dos trabalhos desses mesmos artistas, como é o caso do que o centro está a mostrar com Jorge Molder.
Um desses artistas poderá ser precisamente o homem que apadrinha o centro de arte contemporânea, com as suas coleções de arte tradicional africana, arte antiga chinesa e arte pré-colombiana. A abordagem à obra de José de Guimarães será radicalmente diferente; convencido de que há um certo cansaço e até usura por se ver sempre as peças da coleção permanente de José de Guimarães todas juntas, o responsável prefere expor a obra do artista vimaranense de “tempos a tempos”, através de exposições individuais, muito focadas. A ambição para 2027 é a de promover uma exposição de obras de 1971 a 1974, “período absolutamente matricial” na história do artista.
Sem qualquer necessidade de colocar os núcleos de arte africana, de arte pré-colombiana e de arte antiga chinesa a conviverem entre si e a dialogarem com as exposições em curso num dado momento, o curador do CIAJG prefere a “separação de águas”, num centro com necessidade de renovação. "Este é um momento de fazer reset”, vinca.
Miguel Wandschneider elogia, ainda assim, a história escrita pelo centro de arte contemporânea ao longo de 14 anos, sob a tutela de Nuno Faria e de Marta Mestre. "A impressão que tinha do CIAJG era a de um centro de arte que conseguiu fazer prova de vida. E isso não é pouco. É notável”, sintetiza.
Para o novo diretor artístico, o centro teve sempre “uma programação qualificada, sustentada, continuada, criteriosa, fosse durante o consulado do Nuno Faria, fosse durante o período régio da Marta Mestre”. “Foi sempre uma programação digna, qualificada, apesar dos constrangimentos, apesar das limitações a nível orçamental. Tanto foi, que teve capacidade, quer nos anos do Nuno Faria, quer nos anos da Marta Mestre, de se afirmar a nível nacional", descreve.
Aliás, esse cuidado em ter um diretor artístico com as competências necessárias para dirigir um centro de arte contemporânea é algo que não se encontra fora de Lisboa e do Porto, daí considerá-lo o centro de arte contemporânea mais importante no país, fora das duas principais cidades. Avisa, contudo, que é possível ir mais longe. “É possível afirmar o CIAJG numa posição estatutária mais elevada. Não estou a dizer que vou conseguir isso, mas é esse o objetivo. O objetivo é reposicionar o CIAJG no contexto das instituições de arte portuguesas”, projeta.