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“Autobiografia e herança cultural” cruzam-se nos Festivais Gil Vicente

Tiago Mendes Dias
Cultura \ domingo, junho 07, 2026
© Direitos reservados
Espetáculo “Só mais uma gaivota”, em alusão ao clássico de Chekhov, concluiu a primeira semana do festival vimaranense de teatro. Diretor artístico sublinha ligação entre espetáculos e “casas cheias”.

A evocação do clássico de Anton Chekhov, as recordações do curso de teatro na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), no Porto, a insegurança laboral e financeira de quem vive da arte, a reflexão sobre o próprio gesto que faz o teatro couberam numa interpretação de Miguel Fragata, acompanhada pela interpretação de Valentina Carvalho em língua gestual portuguesa.

Com um cenário alusivo a um meio rural, com gaivotas a esvoaçar, o ator e encenador da companhia Formiga Atómica concentrou em si as nove personagens que encarnam a trama de “A gaivota”, peça estreada em 1896, em São Petersburgo, e, a partir de vários excertos da peça, evocava os colegas que interpretaram os respetivos papéis no exercício final de 2005, com encenação de João Pedro Vaz.

Enquanto representava personagens ensombradas por tribulações artísticas e amorosas – o protagonista, Konstantin Gavrilovich Treplev, ambicionava criar uma nova forma de teatro, enquanto habita com o tio, Sorin, numa casa rural junto a um lago -, Miguel Fragata desvendava os sonhos e confessava as peripécias de quem esteve naquele exercício final, entreabrindo uma janela para os seus traços de personalidade e perfis criativos.

Findo o quarto ato, no qual Konstantin – Kostya – se suicida com um tiro, o ator cria um quinto ato, onde cartografa os destinos dos seus colegas e o quanto eles coincidem com o que haviam sonhado no curso de teatro, simbolizando-os com uma mesa onde repousavam gaivotas. A narração de alguns dos principais acontecimentos da história contemporânea, em Portugal e no mundo, com uma clara tendência para um passado mais esperançoso e um presente mais angustiado serve de pano de fundo à encenação e à reflexão sobre o estado da arte da geração millenial – pessoas nascidas entre 1980 e 1996 -, marcada pela precariedade e pela fragilidade.

Brindado com uma salva de palmas pela plateia que lotou o Teatro Jordão no sábado à noite, o espetáculo “Só mais uma gaivota”, estreado em agosto de 2025, no Centro Cultural de Belém, encerrou a primeira semana dos Festivais Gil Vicente, marcada pela ligação temática entre as várias peças – “Gatilho da Felicidade”, de Ana Borralho e João Galante, exibida no dia 4, “Pela boca morre”, de Tomé Nunes Pinto, e “Álbum de Família”, de Lúcia Pires, no dia 5, e “Ivu’kar”, de João Grilo, e “Só mais uma gaivota” no dia 6.

"Há ligações manifestas entre os espetáculos. Há aqui uma ideia de voltar a olhar para o repertório e para uma certa herança cultural que nos traz aqui, enquanto geração que nasceu nos anos 80 e que nos foi posta nas mãos devido ao contexto político e social dos últimos 20 anos. Para além disso, há um universo particularmente interessante que atravessou os últimos espetáculos, uma matriz de ordem autobiográfica”, vinca ao Jornal de Guimarães o diretor artístico do Teatro Oficina e dos Festivais Gil Vicente, Bruno dos Reis.

A antecipação de “Só mais uma gaivota”, fruto do trabalho desenvolvido por Miguel Fragata em Guimarães na semana que antecedeu o espetáculo, vertido num debate do ciclo Criação Crítica, em 30 de maio, numa leitura encenada de “A gaivota”, a 1 de junho, e na exibição do documentário “Gaivotas em terra”, que inclui entrevistas ao elenco da peça do final de curso, em 2005, a 3 de junho, também mereceu elogios. "Criou-se um arco belíssimo em torno de "A Gaivota"”, salienta Bruno dos Reis.

 

"Gatilho da Felicidade" abriu Festivais Gil Vicente na black box do CIAJG © Leonor Fonseca

"Gatilho da Felicidade" abriu Festivais Gil Vicente na black box do CIAJG © Leonor Fonseca

 

A Oficina estima que os Festivais possam superar os mil espetadores

Convencido de que “muito dificilmente” os Festivais Gil Vicente poderiam estar a correr melhor, pelas “casas cheias” nos vários espetáculos, Bruno dos Reis salienta ainda a “curiosidade, disponibilidade e vontade de encontro com propostas artísticas diversas” e o facto de muito do público se repetir entre espetáculos. “Há público que se vai repetindo, pelo que fazemos esta viagem em contínuo. Parte do público vem ter comigo e identifica pontos de ligação entre os espetáculos. Isso é ir além do que o palco propõe”, realça.

Já o presidente executivo d’A Oficina, Esser Jorge Silva, avança a hipótese de se ultrapassarem os mil espetadores na edição de 2026, o que “significaria duplicar a assistência registada em anos anteriores”, e enaltece o trabalho de Bruno dos Reis na criação de públicos para o teatro, principalmente junto das gerações mais jovens. “O Bruno dos Reis compreendeu bem essa estratégia. Não estamos aqui apenas para programar ou apresentar espetáculos. Estamos a trabalhar a transformação do território através de mecanismos de capacitação, descoberta e participação cultural”, sublinha, citado pela cooperativa municipal.

A vereadora municipal para a cultura, Isabel Ferreira, realçou, por seu turno, que o “entusiasmo inicial” comprova que os Festivais Gil Vicente regressaram com toda a força para “reforçar o estatuto de Guimarães como um território vibrante no panorama cultural nacional e internacional”.

O maior evento teatral da cidade-berço prossegue até 13 de junho, com destaque para a estreia absoluta de AFRO SALOYÁ (quinta-feira 11 junho, às 21h30, no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor), uma investigação de Isabél Zuaa sobre o som e o seu impacto no corpo, nas vivências e nas memórias a partir do vasto legado cultural africano e europeu, antes das apresentações de “TOSHiiB4” de Luísa Guerra, na sexta-feira, 12 junho, às 21h30, na Black Box CIAJG, “Espalhar Fel” de Mickaël de Oliveira (sábado 13 junho, às 16h00 nos Jardins do Palácio Vila Flor) e “Tudo em Avignon e eu aqui”, de Bruno dos Reis no sábado, 13 de junho, às 19h00, na caixa-palco do CCVF.

"Podemos esperar ser felizes na segunda semana. Para além das atividades paralelas, temos aqui a Luanda Casella que vai orientar uma masterclass. Veio precisamente hoje, de Gent. Vai orientar uma masterclass durante quatro dias. Podemos verificar os resultados no Convívio, na quarta-feira à noite, num evento com entrada gratuita, no Salão Nobre. Vai ser um dia junto de amigos, com novos textos, que acabaram de ver a luz do dia", realçou o diretor artístico, a propósito da masterclass “The unreliable narrator”, que antecede os próximos espetáculos.

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