“Absorção e teatralidade” com Jorge Molder e Dorota Jurczak no CIAJG
O diretor artístico do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), Miguel Wandschneider, recorre ao livro “Absorção e teatralidade”, no qual o crítico e historiador de arte norte-americano Michael Fried analisa a pintura francesa do século XVIII, para estabelecer uma contraposição entre as séries fotográficas de Jorge Mölder e as esculturas e gravuras de Dorota Jurczak.
“Na exposição do Jorge Molder, há fotografias em que se interpela o espetador com o olhar. A teatralidade é quando essa figura olha o espetador. As figuras da Dorota vivem muito num estado de absorção, alheadas do espetador. Parecem estar num estado de transe ou de sonho. Muitas vezes, têm os olhos cerrados. Parecem personagens que se alheiam do nosso mundo, saídas da literatura”, compara, ao lançar mais um capítulo de exposições no centro de arte contemporânea, inaugurado neste sábado.
Na visita guiada à imprensa, que antecedeu a inauguração, o périplo começou por “Come di (parte 2)”, uma mostra construída na sequência da exposição patente entre março e setembro. Em “Come di (parte 1)”, o CIAJG exibiu obras selecionadas das séries criadas por Jorge Molder entre 1991 e 1996. No ciclo recém-inaugurado, o centro de arte contemporânea expõe obras do trabalho fotográfico produzido pelo artista português entre 1996 e 2003, ano em que criou a última série com recurso à gelatina e sais de prata.
Nas paredes brancas, vislumbram-se imagens das séries “Anatomia e boxe” ou “Nox”, que representou Portugal na Bienal de Veneza de 1999. A autorrepresentação – método em que o artista usa o seu corpo ou imagens do seu corpo para expressar uma visão artística, mas não necessariamente a si mesmo – volta a estar bem patente, com inúmeros jogos de luz e sombra a moldarem a cabeça e o rosto do artista. Os ecos de séries anteriores pululam mediante uma observação cuidada, numa obra que releva o processo de autocitação e o conceito de duplo. “Ele se está a olhar ao espelho. Ele olha para o seu duplo. A figura do duplo é muito importante no trabalho do Jorge Molder", realça, ao apontar para uma fotografia.
A ideia de máscara também sobressai na leitura das fotografias. “Ali, está mascarado de palhaço e aqui mascarado de gato. Eu dizer mascarado é pertinente. O que está permanentemente a construir são máscaras ou personagens. Um personagem é uma máscara. Todos nós temos a nossa máscara. É um termo muito usado no campo da sociologia para falar de papéis sociais”, realça.
A exposição “Come di (parte 2)” conta com empréstimos da coleção Berardo, ao cuidado do Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém, do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, também em Lisboa, da coleção privada de António Cachola, em depósito no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, e do Museu de Serralves, no Porto.
A autorrepresentação de Jorge Molder em "Come di (parte 2)" © RFX
Esculturas e gravuras num trajeto marcado pela precariedade
Se a primeira parte da exposição antológica de Jorge Molder contrastava com a “sensibilidade punk” de “Back Outside”, do artista escocês Aidan Duffy, a segunda coabita com “a sensibilidade aristocrática” da polaca Dorota Jurczak, diz Miguel Wandschneider. Assim que se transita para a exposição “Itede, itepe”, as molduras e as fotografias a preto e branco dão lugar a esculturas em grés e bronze, com olhos semicerrados, a trabalhos em cerâmica e a gravuras espalhadas pelas paredes, numa rica paleta cromática que sublinha a diferença entre as formas de expressão dos dois artistas.
Há também um sentido de continuidade e de antologia na presença de Dorota Jurczak. Conhecedor do trabalho da polaca nascida em 1978, desde as bienais de Berlim e de Sevilha em meados da década de 2000, Miguel Wandschneider apresentou uma exposição antológica do trabalho entre 2004 e 2016 na Culturgest, em Lisboa, há cerca de uma década. Agora, o CIAJG exibe “uma seleção cuidada de obras entre 2019 e 2016”, algumas delas novas. “Conseguimos proporcionar as condições à artista para se fazer acompanhar da produção de novas obras", diz.
Esse detalhe não é de somenos, já que o trajeto de Dorota Jurczak, artista que deixou a Varsóvia natal para rumar à academia de artes de Hamburgo, aos 19 anos, tem sido marcada pela falta de ateliê. Se a exposição de há 10 anos na Culturgest estava repleta de pinturas, a do CIAJG apresenta esculturas e gravuras cuja fase final exigiram o auxílio de técnicos especializados para se poderem revelar na sua materialidade. "Ela toma todas as decisões relacionadas com a produção das suas obras, mas, para fazer as cerâmicas, tem de recorrer a uma ceramista. Para fazer as gravuras, tem de recorrer a técnicos de impressão especializados”. A gravura em ponta-seca exigiu um trabalho de impressão da artista portuguesa Madalena Parreira, por exemplo.
Do trabalho exposto, sobressai a dimensão retratística: os rostos humanos, as figuras humanas, as esculturas de sapatos ou as gravuras de cenas quotidianas mostram atributos de quem os criou. “Ao longo dos anos, vai construindo uma galeria muito heterogénea de retratos, de figuras. Até se podia dizer que isto são retratos, que os sapatos são retratos”, indica Miguel Wandschneider.
Este ciclo expositivo vai estar patente até 28 de fevereiro de 2027. O acesso à exposição tem o custo unitário de quatro euros ou de três euros, mediante desconto. A entrada é gratuita para crianças até aos 12 anos e para toda a gente, aos domingos de manhã.