“Abril com cantigas do Maio” segue até junho com 37 iniciativas culturais
Guimarães habituou-se a comemorar o 25 de Abril sob a égide de “Cantigas do Maio”, álbum lançado por Zeca Afonso em 1971, e volta a fazê-lo neste ano, com 37 atividades. Um dos enfoques é a comemoração dos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.
Aprovada em 2 de abril de 1976, a Constituição em vigor consagra os princípios sob os quais se regem a democracia portuguesa e estará, por exemplo, em destaque no mural que será erguido pelo Centro Infantil Cultural e Popular (CICP) entre 24 de abril e 10 de maio, designado “50 anos da Constituição e do poder autárquico”. Já a Sociedade Martins Sarmento (SMS) acolhe, entre 21 de abril e 10 de maio, a exposição “As constituições portuguesas”, que percorre os vários documentos constitucionais portugueses desde 1822, ano em que foi publicada a primeira Constituição, e o debate “A Constituição de 1976 – um projeto de futuro?” em 23 de maio, com moderação de Alberto Martins, antigo ministro da Justiça, e intervenções de Manuel Alegre, poeta e deputado constituinte, de José João Abrantes, presidente do Tribunal Constitucional, e Rui Vieira de Castro, anterior reitor da Universidade do Minho.
“A exposição é feita de um modo que pode ser reaproveitada pelas escolas ou por entidades. No dia 9 de maio, teremos ainda um concerto de Miguel Calhaz, para trazer à luz a música de Zeca Afonso, de Fausto, de Adriano, de Sérgio Godinho e de José Mário Branco num contexto mais íntimo”, realçou Antero Ferreira, presidente da SMS.
O programa arranca oficialmente a 18 de abril, com “25 minutos de abril”, um concerto do Claribeats – ensemble de clarinetes da Sociedade Musical de Pevidém com repertório alusivo à Revolução dos Cravos, no átrio da Sociedade Martins Sarmento, às 11h00, e encerra em 23 de junho, com cinema no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor e a terceira apresentação do projeto “Liberdade e cinema amador”, no antigo mercado das Taipas, com um filme-performance de Pedro Bastos cuja banda sonora interpretada pelos professores da Escola de Jazz do Convívio passará antes por Moreira de Cónegos e por Brito.
Tecido associativo em força no programa
Os dias 24 e 25 de abril voltam a ser marcantes no programa, com a inauguração do mural com a chancela do CICP, que começa a ser construído nesta quarta-feira e conta com 16 artistas, segundo Torcato Ribeiro, representante da associação na apresentação do programa.
“O mural teve várias fases, mas penso que, tendo em conta a vertente política que estamos a viver quer na Europa, quer no nosso país, comemorar Abril deve ser um momento de liberdade, em que mesmo a visão daqueles que são contra o 25 de Abril possam ser ouvidos. (…) Os murais são guardados. Mais tarde, serão apresentados no seu todo em números gordos do 25 de Abril”, frisou, durante a sua intervenção.
O CICP promove ainda uma sessão de poesia e música no Toural, na transição de 24 para 25 de abril, e a iniciativa “A liberdade está na rua”, às 21h30 de 30 de abril, com música e imagens alusivas ao 1.º de Maio, numa colaboração com a Sociedade Musical de Pevidém e o Cineclube de Guimarães.
Mais à noite, pelas 21h30, o concerto “Sons da Liberdade” regressa ao Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor. A banda da Sociedade Musical de Pevidém, com direção de Vasco Silva de Faria, e o coro, dirigido por Marisa Oliveira, promove um encontro entre a canção de intervenção e o fado, que terá como solistas convidados Gil do Carmo, Vozes da Rádio e Hot Air Balloon, e ainda as declamações de Inês Lago e Inês Ribeiro.
“Este projeto nasce do dever cívico de celebrar não só o que temos como identidade vimaranense e das suas associações, mas também o valor humano da liberdade. A ideia é celebrar Abril, mas também um valor que é eterno, a liberdade. Desde a sua génese, com a colaboração de César Machado e Carlos Mesquita, conseguimos criar uma narrativa para o concerto a cada ano”, frisou Vasco Silva de Faria, maestro da banda pevidense.
Um dos parceiros do “Sons da Liberdade” é o Cineclube de Guimarães, entidade que vai promover o ciclo de cinema “Os dez de Hollywood”, numa alusão aos realizadores, argumentistas e diretores de fotografia que foram censurados nos Estados Unidos da década de 50 do século XX, face às políticas do senador McCarthy vigiar e perseguir cidadãos norte-americanos simpatizantes do modelo comunista.
O presidente do Cineclube, Carlos Mesquita, lembrou que a associação fundada em 1958 emitiu sempre filmes, apesar das dificuldades de “programar o que bem entendia”, e que foi abundantemente citado nos relatórios da PIDE. “O Cineclube é citado abundantemente nos relatórios da PIDE, principalmente em referência de Santos Simões. Era um sítio onde se promovia ideias desafetas ao regime. Não há problema. Problema era se promovêssemos uma ideologia afeta ao regime. Não era uma ditadura suave, como se quer fazer agora parecer”, reiterou.
O Convívio, que participa no “Abril com cantigas do Maio” através do BJazz Choir, e o Círculo de Arte e Recreio, que promove o 25 de Abril através da sua fanzine, estiveram igualmente representados na apresentação. O programa conta ainda com a cooperativa A Oficina, a Biblioteca Municipal Raul Brandão, a Banda Filarmónica de Moreira de Cónegos, a Banda Musical de Caldas das Taipas, o coletivo Osmusiké e a Sociedade Musical de Guimarães, além da Sociedade Musical de Pevidém. A sessão solene da Assembleia Municipal volta a decorrer a 25 de Abril, às 11h00, no Teatro Jordão, dia em que também acontece o "25 minutos de abril", com chancela da Sociedade Musical de Pevidém, o "Sementes de Abril", do CICP, o Concerto Comemorativo do 25 de Abril, pela banda de Caldas das Taipas, e "Abril ao coreto", durante a tarde, com um conjunto de artistas reunidos por Dino Freitas.
“Falar de Abril em 2026, ano em que se assinalam os 50 anos da Constituição e do Poder Local, bem como o centenário do nascimento do vimaranense Eduardo Ribeiro, é afirmar no espaço público os valores da liberdade, da inclusão, da partilha e da fraternidade”, reiterou Isabel Ferreira, vereadora com o pelouro da cultura. A celebração do centenário do nascimento do vimaranense que se opôs ao Estado Novo realiza-se a 18 de junho, com a exibição de “Daqui houve resistência”, com banda sonora ao vivo de Manuel d’Oliveira. Isabel Ferreira assinalou que haverá mais iniciativas para assinalar a efeméride.