A “Taciturna”, peça sem futuro, só “presente frágil”, estreia no GUIdance
Há dois anos que a ideia de fragilidade – a “fragilidade do presente e a fragilidade do corpo” – merece a atenção de Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão, coreógrafos que regressam ao GUIdance com a estreia absoluta de “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil”, às 18h30 de sábado, dia de encerramento da 15.ª edição do GUIdance. “Na dança, nos bailarinos e até nos coreógrafos, projetamos um futuro quando indiscutivelmente o corpo irá soçobrar. Existem outras culturas e outras formas de compreender a dança e o corpo em que este soçobrar, este envelhecer, este maturar, esta "taciturna" não é algo de negativo, é algo de positivo”, começa por dizer Hugo Calhim Cristóvão ao Jornal de Guimarães.
O processo criativo iniciado em setembro materializar-se-á no palco de um Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) praticamente esgotado, através dos corpos e dos movimentos de Sara Miguelote, Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul. "Começamos sempre o processo partilhando referências literárias, referências imagéticas. Partilhamos todo esse mundo com os bailarinos. Aos poucos, como um croché, ponto por ponto, vamos criando pequenas frases, pequenas partituras, que se vão complexificando, que se vão aprofundando. Gostamos muito da identidade que cada bailarino traz. Isso traz complexidade e riqueza à peça", retrata Joana Von Mayer Trindade, em declarações ao Jornal de Guimarães.
Depois de apresentarem, em Guimarães, “Da insaciabilidade no caso ou ao mesmo tempo um milagre” (2018), “Dos suicidados – o vício de humilhar a imortalidade” (2019) e “Fecundação e Alívio neste Chão Irredutível onde com Gozo me Insurjo” (2021), a mais recente criação de Joana e Hugo explora a literatura de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Al Berto e Paul Celan e inspira-se nas Mahavidyas, as 10 deusas tântricas do hinduísmo que representam múltiplas dimensões do feminino. Uma dessas figuras em particular, Dhumavati, enviuvada e enrugada, emerge como alusão à fragilidade do corpo sem perspetiva de futuro.
“Há nove mulheres extremamente jovens e sensuais e uma que é idosa e triste, Dhumavati. A peça tem um bocadinho a ver sobre como reagir depois de se perderem as esperanças todas, de se perder a projeção de futuro. O nosso mundo acaba por estar aí: não há ideologia, não há utopias. Há uma espécie de medo sobre o que vem. Estamos à procura nas Mahavydias de uma dança que não se ancora numa perspetiva de futuro - o jovem que vai crescer, o que vai melhorar. A Dumavati é a imagem da deusa velha”, observa o coreógrafo.
Embora haja um chão comum a obras anteriores – a entrega, a generosidade, a crueza, a colocação dos bailarinos no centro da ação, a dissonância de movimentos e a complexidade do que se expressa -, “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil” tem uma construção dramatúrgica que se diferencia e que encerra questões como a possibilidade de uma pessoa dançar quando padece de uma doença terminal ou quando sente que o corpo é um “aparente inimigo”. Hugo Calhim Cristóvão dá o exemplo de Jacqueline du Pré, uma das mais reconhecidas violoncelistas do século XX: “Uma das músicas ouvida no nosso espetáculo é tocada pela Jacqueline du Pré, uma violoncelista brilhante que teve uma doença [esclerose múltipla] e começou a perder a sensibilidade na ponta dos dedos. Continuou a tocar fantasticamente, mas tinha uma consciência muito grande que, de cada vez que estava a tocar, o corpo lhe estava a fugir".
GUIdance proporciona aos artistas “muita dignidade e visibilidade”
Presentes em edições anteriores do GUIdance, os responsáveis pela associação cultural Nuisis Zobop veem um festival a crescer, que proporciona aos artistas a hipótese de apresentarem o seu trabalho “num meio com muita dignidade e visibilidade” e que vai atraindo novos criadores e novos públicos, evitando a estagnação. O contacto com o território envolvente sobressai também no festival de dança contemporânea.
“Não é aquele festival em que venho, faço o espetáculo e vou-me embora e não tenho contacto com a localidade, contacto com ninguém, e acaba por ser uma experiência pouco gratificante, que não deixa lastro. O festival está a crescer cada vez mais. Quem dera que houvesse mais festivais assim em Portugal”, realça Joana Von Mayer Trindade.
Na quinta-feira, os criadores protagonizaram uma das Embaixadas da Dança, na Escola Secundária de Caldas das Taipas (ESCT), onde dialogaram com os alunos acerca da relação de cada um com o seu corpo. “Eles precisam de nós e nós precisamos deles. Todos precisamos do contacto com o corpo e da relação com o corpo, e de pensar o corpo, de estar no corpo e de comunicar através do corpo. A partir daí, gerar pensamento, outras ferramentas para se solucionar problemas. A juventude tem uma energia muito rebelde, o que me enche muito de energia", acrescenta a coreógrafa.
Presente pela primeira vez numa Embaixada da Dança, Hugo Calhim Cristóvão realça que a sessão na ESCT lhe chamou a atenção para um vazio no atual programa curricular: a educação emocional. No entender do coreógrafo, a omnipresença dos telemóveis no dia a dia de cada adolescente acentua a tendência para se isolarem, dificultando o contacto necessário a essa educação emocional.
“Uma educação que trata as emoções precisa de espaços conjuntos, espaços de convívio, espaços em que possam acontecer coisas e as pessoas coloquem a si próprias novas formas de ser e de estar. Isso já pouco existe e, no corpo, existe menos ainda: saber reconhecer as emoções do corpo, saber dançá-las. (…) Para as artes poderem ter público, é importante que haja esse reconhecimento. São iniciativas que deviam ser não pontuais", considera.